Por Michelle Amaral da Silva — Última modificação 26/08/2008 14:49
Contribuidores: Frei Betto
A frágil democracia brasileira se encontra ameaçada nas grandes cidades. À margem do Estado legal se expande e fortalece o Estado ilegal
26/08/2008
Frei Betto
O êxodo da população do bairro carioca de Vigário Geral, acossado pelo tiroteio entre traficantes e policiais, deixa sem aulas 3.071 crianças, fecha o comércio local, impede os moradores que ali permanecem de exercerem o direito elementar de ir e vir.
A frágil democracia brasileira se encontra ameaçada nas grandes cidades. À margem do Estado legal se expande e fortalece o Estado ilegal. A barbárie se faz presente lá onde o poder público se faz ausente. Quando muito, o Estado marca presença eventual como força repressiva, jamais como ente administrativo.
Em favelas, impera o narcotráfico, que coopta crianças e jovens, cobra proteção do comércio local, administra bailes e quadras de esportes, pune severamente quem transgride a "lei do cão" e ainda presta assistência social a vizinhos, como internação hospitalar, compra de remédios, bolsas de estudo, consertos domiciliares e ampliação de barracos.
Nas periferias, as milícias, em geral dominadas por policiais, ditam normas e procedimentos: cobram pedágio dos moradores e comerciantes, controlam o fornecimento de gás, monopolizam o transporte em vans e microônibus, impõem aos eleitores seus candidatos.
Quanto mais omisso o poder público nessas áreas densamente povoadas por famílias de baixa renda, maior o império da barbariecracia – o regime da barbárie, que se impõe pelo terror.
Moradores de favelas e subúrbios, em sua imensa maioria, são gente honesta e trabalhadora, como constatei nos cinco anos em que morei na favela de Santa Maria, em Vitória. Porém, são desprotegidos enquanto cidadãos. Não dispõem de áreas de lazer, esporte e cultura; as escolas são sucateadas, os professores mal remunerados (e ainda há governos que reagem ao piso nacional), o ensino é de má qualidade; o serviço de saúde agoniza; o saneamento é precário; o número de moradias construídas com financiamento público é ínfimo.
Basta mapear as obras do poder público, como a expansão do metrô carioca, para se constatar que a prioridade recai sobre a minoria da população de renda média ou alta. A parcela capaz de retribuir em dividendos eleitorais. É esta reduzida, mas poderosa faixa da população – formadora de opinião –, que merece o melhor serviço público. O resto, considerada a inexistência do Deus-dará, é empurrado às mãos dos meliantes.
Entre os municípios do Rio e São Paulo, há pelo menos 2 milhões de jovens, de 14 a 24 anos, que não terminaram o ensino fundamental. Desse contingente procedem 80% dos homicidas e também 80% dos assassinados. O que comprova que a violência urbana não decorre da pobreza, mas sim da falta de educação de qualidade.
Se o Estado se fizesse presente nessas áreas explosivas, através de escolas e cursos profissionalizantes, atividades esportivas e artísticas, com certeza o narcotráfico perderia força a médio prazo. Nem o próprio traficante deseja que seu filho lhe siga os passos.
E quando o governo fará uma ampla reforma nos critérios de seleção e formação de policiais civis e militares? Como se explica que agentes do Estado cometam assassinatos, tráfico de armas e drogas, tortura e roubo de bens encontrados em mãos de bandidos?
Infelizmente, no Brasil cultura é luxo da elite. Basta conferir o orçamento do Ministério da Cultura. As poucas iniciativas dependem do mecenato de empresas que raramente investem no mundo dos pobres.
Esta é a mais perversa forma de privatização: a que cede aos traficantes e às milícias clandestinas o direito de agir como um Estado dentro do Estado. Como todos sabemos que eles não delimitam seu raio de ação às áreas de baixa renda, as classes média e alta se tornam reféns permanentes da barbárie, seja invadidas pelo pavor ao risco de violência, seja pelo compulsório confinamento às grades de suas moradias e à blindagem de seus veículos.
Imaginem se os R$ 60 bilhões gastos por ano em segurança privada no Brasil fossem investidos em educação de crianças e jovens em situação de risco e na formação de policiais íntegros!
Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
terça-feira, 12 de agosto de 2008
HOMEM SALÃO: O DONO DO CAOS
Dilsom Barros
A espécie mais estranha
De toda a raça humana
É o tal homem salão
Descendente da tirana
Etnia ‘homem corruptos’
Famosa por ser sacana
Essa clã tipo mundana
Só existe no Brasil
Alimentado com grana
Nessa terra evoluiu
Vendendo e comprando voto
Seu reinado construiu
No poder se garantiu
Há um século, ano a ano,
Perpetua seu poder
Como nobre soberano
Atropela adversário
Executa qualquer plano
Deixa o povo no engano
Não se sente traidor
Combina com sua classe
Favor paga com favor
Se esquece que seu cargo
Pertence a cada eleitor
Para nós um desertor
Não representa ninguém
Representa a si mesmo
Não delega o que tem
De direitos nos mandatos
Que é do povo também
Quer ainda ser do bem
Pousando com alegria
Com toda sociedade
É fora de sintonia
Não existe lei alguma
Que lhe tira a regalia
Quando já se anuncia
O final do um mandato
Corre ali nos seus ‘currais’
Andando dentro do mato
Distribui mesquinharias
É de novo candidato
Muda a cara nesse fato
Pede voto em cada lar
Aperta a mão do povo
Se dizendo popular
Dá as costas e vai embora
Para nunca mais voltar
Não vai conta nos prestar
Enganando os cidadãos
No parlamento desfruta
Junto com os seus “irmãos”
Do dinheiro que é público
Rebanhando com as mãos
Diante dos cidadãos
Apresenta-se na beca
Parecendo homem puro
Que não trai e nunca peca
Mas pode conter dinheiro
Escondido na cueca
Pois já fez esta meleca
No ápice do seu reinado
Articulando um esquema
Para cada deputado
Receber seus trinta mil
Todo mês depositado
O dinheiro escoado
Saiu do Valerioduto
Num sistema de desvios
Depurado e enxuto
Comprando mais de cem votos
Essa renda era o fruto
Demonstrando ser corruto
Em apoio ao presidente
Quem votasse nos projetos
Recebia de presente
Uma mala de dinheiro
Cada nota ainda quente
Essa trama eficiente
Por muito tempo deu certo
Só não contava a língua
De um membro mais esperto
Sentindo que ia perder
Colocou o jogo aberto
Quem abriu foi o Roberto
Que se diz um homem sério
Denunciou a falcatrua
Criada no Ministério
Por Dirceu e Genuíno
Aplicado por Valério
Descoberto o mistério
No banco desse careca
Começou a surgir casos
De dinheiro na cueca
Em dólar e em real
Nas partes em que defeca
Descobriram uma reca
Participando da farra
Brincado com verbas públicas
De projeto que esbarra
Nas mesas dos deputados
Que a grana logo agarra
Todo mês era uma farra
Recebendo o mensalão
Enquanto isso a saúde,
Segurança e educação
Sofria com o descaso
Entre a população
Esse tipo de ladrão
Reina livre no Brasil
A justiça é mesmo cega
Quando vê diz que não viu
E ninguém sabe de nada,
Se sabe, nos omitiu
Pode até ser que mentiu
Pra salvar a sua imagem
Permitindo impunidade
Para essa ladroagem
Com mais de cem corruptus
Nenhum foi à carceragem
Essa grande sacanagem
À injustiça se une
Todos saíram ilesos
Parlamentar é imune
Reelege-se de novo
Nunca mais ninguém o pune
Homem salão ficou impune
Está livre a regalia
O máximo de pena foi
Sua aposentadoria
Outro exemplo como este
Vai surgir a qualquer dia
Nessa Sociologia
Participo no papel
De criticar injustiças
Com meus versos de cordel
À política brasileira
Quem não sabe ser fiel
Dilsom Barros é aluno do Curso de Geografia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade
Federal da Paraíba - UFPB. (dilsombarros@hotmail.com)
Fonte: Revista Política & Trabalho
A espécie mais estranha
De toda a raça humana
É o tal homem salão
Descendente da tirana
Etnia ‘homem corruptos’
Famosa por ser sacana
Essa clã tipo mundana
Só existe no Brasil
Alimentado com grana
Nessa terra evoluiu
Vendendo e comprando voto
Seu reinado construiu
No poder se garantiu
Há um século, ano a ano,
Perpetua seu poder
Como nobre soberano
Atropela adversário
Executa qualquer plano
Deixa o povo no engano
Não se sente traidor
Combina com sua classe
Favor paga com favor
Se esquece que seu cargo
Pertence a cada eleitor
Para nós um desertor
Não representa ninguém
Representa a si mesmo
Não delega o que tem
De direitos nos mandatos
Que é do povo também
Quer ainda ser do bem
Pousando com alegria
Com toda sociedade
É fora de sintonia
Não existe lei alguma
Que lhe tira a regalia
Quando já se anuncia
O final do um mandato
Corre ali nos seus ‘currais’
Andando dentro do mato
Distribui mesquinharias
É de novo candidato
Muda a cara nesse fato
Pede voto em cada lar
Aperta a mão do povo
Se dizendo popular
Dá as costas e vai embora
Para nunca mais voltar
Não vai conta nos prestar
Enganando os cidadãos
No parlamento desfruta
Junto com os seus “irmãos”
Do dinheiro que é público
Rebanhando com as mãos
Diante dos cidadãos
Apresenta-se na beca
Parecendo homem puro
Que não trai e nunca peca
Mas pode conter dinheiro
Escondido na cueca
Pois já fez esta meleca
No ápice do seu reinado
Articulando um esquema
Para cada deputado
Receber seus trinta mil
Todo mês depositado
O dinheiro escoado
Saiu do Valerioduto
Num sistema de desvios
Depurado e enxuto
Comprando mais de cem votos
Essa renda era o fruto
Demonstrando ser corruto
Em apoio ao presidente
Quem votasse nos projetos
Recebia de presente
Uma mala de dinheiro
Cada nota ainda quente
Essa trama eficiente
Por muito tempo deu certo
Só não contava a língua
De um membro mais esperto
Sentindo que ia perder
Colocou o jogo aberto
Quem abriu foi o Roberto
Que se diz um homem sério
Denunciou a falcatrua
Criada no Ministério
Por Dirceu e Genuíno
Aplicado por Valério
Descoberto o mistério
No banco desse careca
Começou a surgir casos
De dinheiro na cueca
Em dólar e em real
Nas partes em que defeca
Descobriram uma reca
Participando da farra
Brincado com verbas públicas
De projeto que esbarra
Nas mesas dos deputados
Que a grana logo agarra
Todo mês era uma farra
Recebendo o mensalão
Enquanto isso a saúde,
Segurança e educação
Sofria com o descaso
Entre a população
Esse tipo de ladrão
Reina livre no Brasil
A justiça é mesmo cega
Quando vê diz que não viu
E ninguém sabe de nada,
Se sabe, nos omitiu
Pode até ser que mentiu
Pra salvar a sua imagem
Permitindo impunidade
Para essa ladroagem
Com mais de cem corruptus
Nenhum foi à carceragem
Essa grande sacanagem
À injustiça se une
Todos saíram ilesos
Parlamentar é imune
Reelege-se de novo
Nunca mais ninguém o pune
Homem salão ficou impune
Está livre a regalia
O máximo de pena foi
Sua aposentadoria
Outro exemplo como este
Vai surgir a qualquer dia
Nessa Sociologia
Participo no papel
De criticar injustiças
Com meus versos de cordel
À política brasileira
Quem não sabe ser fiel
Dilsom Barros é aluno do Curso de Geografia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade
Federal da Paraíba - UFPB. (dilsombarros@hotmail.com)
Fonte: Revista Política & Trabalho
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